terça-feira, 12 de outubro de 2010

Entre trevas e risos

Não era uma bonita cidade, por todo lado só era possível ver paredes cinza, o vento uivava alto parecendo um lobo abandonado, por entre as sombras dos altos prédios era possível ver fachos de luz, mas nada que causasse a iluminação que aquele lugar precisava. Era uma noite de dezembro e por mais assustada que ela estava não conseguia mais se impressionar com o cheiro fúnebre que as ruas exalavam, talvez a mesmice começará a lhe atingir ou talvez somente aquele clima de morte a fazia sentir-se em casa. Um arbusto começou a se movimentar com freqüência, como se ali estivesse algum animal, o que parecia inviável já que nada tinha vida, nem ao menos o arbusto era verde… Mais chacoalhadas aconteceram, até que um coelho pardo veio pulando em sua direção, o susto foi grande e a presença daquele pequeno ser inofensivo a fez rir sozinha.
Garotas não deveriam andar desacompanhadas nas ruas de cidades com má fama, ainda mais quando elas são cruéis até mesmo na luz do dia, os perigos que a noite carrega podem não ser medidos na mente daquela pequena criatura que mais parecia um anjo entre os caminhos do inferno. Se rostos delicados ditassem personalidades, diria que a alma daquela menina era pura inocência, mas se olhasse no fundo de seus olhos veria que inocência ali era algo que inexistente. Afinal, uma pessoa inocente não sairia sozinha a tal hora apenas com um casaco para se proteger do frio e tênis de caminhada para a qualquer momento se preparar para correr, ela estava ali procurando algo, e este é o problema, quem procura acha.
Ela continuou a fitar o coelho se afastando, mas o animal não tinha para onde correr, era tudo cinza e sólido, o único modo de voltar a se esconder era pular novamente para o arbusto, mas ali estava uma estranha impedindo a passagem. Silenciosamente a garota se mexeu no vento e tentou pegar o coelho pelas orelhas, mas ele era mais rápido do que ela previu, correu atrás dele como uma criança e quanto mais corria ainda mais depressa ele se afastava. Uma gargalhada veio das trevas, ela parou no mesmo instante e pediu:
- Até que enfim você decidiu se mostrar. Já estava agoniada com a sensação de ser observada, venha logo me ajudar a pegar este coelho, esse frio está pedindo um ensopado, talvez ele substitua o peixe. – Ela dizia em um tom quase impenetrável de tão frio, parecia conhecer a gargalhada, mas no fundo estava assustada como aquele coelho, sentia que a qualquer momento quem iria ser o prato principal da noite eram suas vísceras, nojento, mas nada era impossível, e pensar no nojento ajudava a não mostrar tanto medo.
Passos lentos estavam se aproximando, mas não era do mesmo lugar de onde a gargalhada emergiu, até que a menina dos tênis de corrida decidiu agir da melhor forma possível, correr. Ao mesmo tempo que era sábio não deixava de ser covarde, até porque nada estava tentando pegá-la, sua agitação não era a mesma do coelho, o animal queria apenas voltar para casa, mas ela queria voltar para onde havia ouvido a gargalhada, porém era mais complexo voltar do que apenas desejar. Os pensamentos se mostravam acelerados, muitas possibilidades começaram a passar por sua cabeça, talvez não fosse alguém querendo fazer mal, apenas um morador de rua rindo da travessura de um projeto de mulher, ou o medo não foi à toa, um tipo de maníaco que poderia acabar com sua vida em questão de piscares. A curiosidade era maior do que todo o medo, ela sorria torto enquanto continuava a correr, afinal ela nem ao menos chegou a fazer algo interessante na boca da noite.
Ao chegar em casa não ouviu ruídos, saiu sem ser vista e queria chegar da mesma forma, a corrida de volta tinha sido mais forte do que ela imaginava, ao tirar o casaco viu que ele estava ensopado de suor, apesar do frio e do horário era inevitável não passar ao banheiro. A ducha parecia estar ainda mais forte naquela noite, ela vinha para desfazer os nós das costas, caia como uma massagem forte, ritmada e relaxante. Caindo na cama não ouviu nem viu mais nada, apenas sonhou, com a gargalhada, com as trevas e com coelhos.

Um comentário:

  1. Querida Lola, entre trevas e risos, há um espaço a ser preenchido. Segundo Shakespeare, "Somos feitos da mesma matéria de nossos sonhos".

    Quero aproveitar e lhe convidar para ler “Para o final a contemplação” no meu http://jefhcardoso.blogspot.com
    Será um prazer lhe receber.

    “Para o legítimo sonhador não há sonho frustrado, mas sim sonho em curso” (Jefhcardoso)

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